Nessa matéria da revista, podemos ter a certeza de que a criação de bezerras não é um desafio só no Brasil. Quando questionados sobre a maior oportunidade de melhoria em uma propriedade leiteira, não é raro que o bezerreiro esteja entre os principais alvos da equipe.
As bezerras têm uma dependência muito grande da mão de obra, que precisa estar alinhada e focada em alguns pontos fundamentais: transferir imunidade passiva de modo eficiente, manter o ambiente controlado e estar atenta ao menor sinal de anormalidade que o futuro da fazenda apresente.
Diarreia e pneumonia estão entre os principais desafios sanitários na criação de bezerras. Embora muitas vezes sejam tratadas como problemas independentes, existe uma conexão importante entre a saúde intestinal e a resposta respiratória.
Uma bezerra que enfrenta um desafio intestinal pode ter sua capacidade de defesa comprometida, aumentando a suscetibilidade a outros problemas. Por isso, proteger o intestino também pode ajudar a proteger os pulmões.
O intestino também é uma barreira de defesa
Com o avanço dos estudos, ficou cada vez mais evidente a importância das conexões entre intestino, cérebro e sistema imune. As vilosidades e toda a complexa estrutura intestinal deixam de ser vistas apenas pelo papel na absorção de nutrientes e no desempenho e passam a ocupar lugar de destaque também na resposta imunológica.
A bezerra depende de uma barreira intestinal íntegra e capaz de realizar diferentes mecanismos de defesa contra agentes potencialmente patogênicos.
Quando essa barreira perde sua integridade e a permeabilidade intestinal aumenta, microrganismos e seus componentes podem atravessar locais que deveriam permanecer protegidos, favorecendo a inflamação. Cria-se, então, um efeito em cascata capaz de desestabilizar a saúde do animal.
Da diarreia à pneumonia
Na rotina do bezerreiro, é comum observar animais que apresentam diarreia e, posteriormente, precisam ser tratados para pneumonia. E não é incomum que isso aconteça mais de uma vez.
O comprometimento intestinal pode desencadear respostas inflamatórias sistêmicas e criar condições que aumentam a suscetibilidade às doenças respiratórias.
Isso reforça a importância de não avaliar intestino e pulmão de forma totalmente isolada.
A prevenção começa no manejo
Antes de pensar em aditivos, é preciso reduzir a exposição aos agentes infecciosos. E deixo como sugestão: sempre que possível, estabeleça uma boa conexão dentro da tríade indivíduo, agente e ambiente.
Ambiente e equipamentos de alimentação devem permanecer limpos, e o fluxo de manejo deve começar pelas bezerras mais jovens antes de seguir para as mais velhas. Animais doentes também devem ter o contato com os saudáveis limitado, com atenção à higienização de botas e à troca de luvas após o manejo.
Reduzir situações de estresse é outro ponto importante, já que elas podem comprometer tanto a função imunológica quanto a integridade intestinal.
E ter condições de reconhecer com quem estamos lidando é fundamental para aumentar a assertividade tanto na prevenção quanto no tratamento.
Nutrição pode ajudar a proteger o intestino
Algumas estratégias nutricionais também podem contribuir para a saúde intestinal. Entre elas estão os microrganismos de alimentação direta (DFM), que podem atuar na competição com patógenos e na modulação do ambiente intestinal.
Os benefícios, porém, dependem da cepa, do produto e da dose utilizados. Além disso, combinar diferentes aditivos sem evidências sobre suas interações não significa necessariamente obter melhores resultados.
O papel do colostro não termina no primeiro dia
Nas primeiras horas de vida, o colostro é essencial para a transferência de imunidade passiva. Depois desse período, porém, seus componentes ainda podem exercer importantes efeitos locais no intestino.
A IgG e outros componentes imunológicos presentes no colostro permanecem no lúmen intestinal e podem auxiliar na defesa contra patógenos e no desenvolvimento gastrointestinal.
Por isso, o fornecimento prolongado de colostro vem recebendo atenção. A matéria cita estratégias entre 3 e 14 dias, incluindo leite de transição, pequenas porções de colostro adicionadas ao leite ou sucedâneo e substitutos de colostro fornecendo aproximadamente 10 g de IgG por dia.
Gosto de imaginar que, diariamente, estamos colocando no intestino pequenos soldados que, juntos, fortalecem um verdadeiro exército de defesa. Mesmo após o período de absorção das imunoglobulinas, esses componentes continuam presentes no lúmen intestinal, onde podem se ligar aos patógenos e contribuir para a proteção local.
É uma forma de continuar protegendo a bezerra de dentro para fora.
Um sistema conectado
A saúde intestinal vai muito além da prevenção da diarreia. Um intestino íntegro participa da defesa do organismo e pode influenciar a capacidade da bezerra de enfrentar outros desafios sanitários.
A partir do nascimento, temos praticamente uma página em branco para começar a escrever a história daquela bezerra. Por isso, cuide do local de nascimento, da limpeza da mamadeira e dos utensílios utilizados já na primeira hora de vida, da qualidade imunológica e sanitária do colostro e da higiene dos alojamentos.
E, principalmente, promova a formação continuada da equipe para que todos compartilhem o mesmo objetivo: cuidar do resultado do nascer ao pôr do sol.
Higiene, redução da exposição aos patógenos, menor estresse e estratégias nutricionais bem fundamentadas precisam fazer parte de uma mesma abordagem.
No bezerreiro, cuidar do intestino pode ser também uma forma de proteger os pulmões.
Por Mariana Marcondes, Médica-Veterinária
Baseado na matéria “Proteja o intestino para proteger os pulmões”, de Bethany Dado-Senn, publicada na Hoard’s Dairyman Brasil – Agosto de 2026.




