“Quanto mais vezes o veterinário é chamado, melhor ele está fazendo seu trabalho.”
Essa frase parece lógica à primeira vista, mas nem sempre representa a realidade das fazendas mais eficientes.
Em um artigo publicado na edição de Junho da Revista Hoard’s Dairyman Brasil, um veterinário relata que, ao longo dos anos, percebeu uma redução expressiva nos atendimentos de emergência em suas propriedades assistidas. Curiosamente, isso não aconteceu porque surgiram menos clientes, mas porque os produtores passaram a reconhecer problemas precocemente, adotar protocolos consistentes e investir em prevenção. O acesso a informação e capacitação constante também são parte do trabalho de bons veterinários. Como consequência, além da melhora dos indicadores das fazendas, houve também uma melhora significativa na qualidade de vida do próprio profissional.

Assistência técnica vai além do atendimento clínico
Durante muitos anos, a medicina veterinária esteve fortemente associada ao tratamento das doenças. Hoje, entretanto, sabemos que propriedades de alta performance apresentam uma característica em comum: elas trabalham de forma preventiva.
Isso significa investir continuamente nas pessoas, padronizando os manejos, deixando as informações simplificadas para que sejam verdadeiramente executadas e monitorando. Tornando a tomada de decisões algo compartilhado, sem uma “palavra final” do veterinário, o produtor e sua equipe são protagonistas do resultado. Nesse modelo, o veterinário deixa de atuar apenas quando o problema aparece e passa a construir processos capazes de reduzir sua ocorrência.
O conhecimento transforma a rotina da fazenda
Na criação de bezerras, poucos resultados acontecem por acaso. A maioria das doenças está relacionada à soma de pequenas falhas de manejo que, quando repetidas diariamente, aumentam o risco de enfermidades.
Alguns exemplos são bastante conhecidos, a falha da colostragem sendo a causa primária de diversas enfermidades, somadas a escolhas de manejo que começam em ventilação, estrutura, cama de baixa qualidade e demora na identificação dos animais doentes. O responsável pela cria de bezerros é a peça mais importante da fazenda, no sentido de estar entregando a vaca do futuro e cuidando do maior potencial da fazenda, e, portanto, deve estar consciente de que todas as escolhas feitas nessa fase, irão impactar o resultado lá na frente.
Corrigir esses pontos depende muito mais de pessoas capacitadas do que de novos medicamentos. Quando toda a equipe compreende o motivo de cada procedimento, a qualidade da execução aumenta naturalmente.
Se a fazenda melhorar, o veterinário trabalha menos?
Está aí um ponto importante que todos os veterinários devem se questionar, mas, na prática o que se percebe é o contrário. Apenas há uma mudança significativa na forma de executar o trabalho. Paramos de apagar fogo quando encontramos o foco do incêndio. Trocando em miúdos, a fazenda que aprende a identificar os fatores de risco e consegue corrigir depressa, performa melhor e carrega o veterinário junto. Agora, sobra tempo para treinamentos, educação continuada da equipe e ajustes finos e pontuais dentro de um manejo redondo. O profissional deixa de atuar exclusivamente de forma reativa e passa a participar diretamente das decisões que influenciam os resultados da propriedade.
É qualidade de vida para a fazenda, colaboradores, animais e médicos veterinários.
O maior legado da assistência técnica
Talvez o melhor indicador do sucesso de um programa de assistência não seja o número de tratamentos realizados. Seja o número de pessoas capacitadas, é exatamente isso que permite reduzir perdas, melhorar o bem-estar animal e tornar o sistema mais eficiente. Já pensou ter que esperar o veterinário dirigir por 2h para conseguir dar um diagnóstico de distocia num parto? Ou então auscultar uma bezerra com pneumonia? Quando a fazenda consegue coletar essas informações e levar até o profissional, o diagnóstico além de precoce se torna preciso. O tratamento que era no escuro, se torna assertivo.
No fim das contas, capacitar pessoas é uma das estratégias mais sustentáveis para produzir melhores resultados.

Conclusão
Medicamentos, equipamentos e novas tecnologias continuam sendo importantes para a pecuária leiteira. No entanto, nenhuma ferramenta substitui uma equipe preparada para tomar boas decisões diariamente. Quando o conhecimento chega até quem executa o manejo, os problemas deixam de ser tratados apenas após aparecerem e passam, cada vez mais, a ser evitados.
Essa talvez seja a maior contribuição da assistência técnica moderna e madura: construir fazendas capazes de prevenir mais, produzir melhor e depender menos das emergências.
Continue acompanhando o blog da Hoard’s Dairyman Brasil para acessar novos artigos técnicos sobre manejo, sanidade, reprodução e gestão na pecuária leiteira. Compartilhe este artigo com sua equipe e reflita: quanto do tempo da sua fazenda é dedicado à prevenção e quanto ainda é gasto apagando incêndios?
Escrito por Mariana Marcondes Marques de Souza, Médica veterinária




